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Envelhecer sabendo que a vida é algo digno de não se perder

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Há quem trate a velhice como um mal, um peso, uma dor, e a juventude como se fosse a melhor época da vida. Acredito ser esta uma visão romantizada e contraditória. Escutei uma vez de um grande amigo de quase 80 anos o seguinte: “Há sempre uma parte da minha cabeça que se prepara para o pior, e outra parte que acredita que, se eu me preparar bem, o pior não acontecerá”, sorrindo me disse que na melhor das hipóteses vamos todos morrer. Ele esta otimista quanto a continuar bem de saúde, cuidando para que seu corpo seja habitado até os ultimos dias da sua vida, de maneira confortável, menos dolorosa, cuidando da alimentação e praticando seus exercícios diariamente apesar de se movimentar com dificuldade. 

Envelhecer é perder a autonomia e a independência, é viver em um universo de recordações, trocando um passado vivido com intensidade por uma existência confortável e acomodada, mas nem por isso, menos significativa e importante, lidando com a inevitável mistura de saudades de uma época anterior e uma nostalgia quase dolorosa. Será possível compensar a falta de vigor físico pela animação em realizar atividades prazerosas? Aprendi com minha mãe sobre o envelhecer, ela soube dar trabalho, foi perdendo suas capacidades com total lucidez, e ao longo deste trajeto, de maneira simples e bem humorada, me fez perceber a importância do sentimento de gratidão ao receber cuidados, demostrando ser possível que na velhice, haja riso, parceria, poesia e fé diante das adversidades.  

Eu penso que a velhice nada mais é do que um processo de vida bem sucedido que começou na infância. Envelhecer pode ser uma benção quando se entende a vida como um processo interno, cuidando com responsabilidade da mente e do corpo para lidar melhor com as dificuldades e limitações que inevitalvelmente surgirão. Com o meu pai, aprendi que a única maneira de não envelhecer é morrendo cedo, na minha memória, ele continua lindo e charmoso, vestindo sua camisa de linho branca, com seus 49 anos de idade. 

Não é melhor vivermos a vida como uma trajetória inédita e só nossa, sem deixar nada para depois, vivendo de maneira única, própria e singular? Aproveitando o tempo que é precioso, observando e levando em consideração a importância da qualidade das nossas escolhas no dia a dia. Agora, em tempos de isolamento, é possível perceber qual a história que construímos com as pessoas à nossa volta.   

É difícil demais conseguir existir, a maioria das pessoas apenas vai levando. É um desafio conhecer e encarar nossos próprios conflitos, fazer uma boa gestão de nós mesmos, e não colocar a culpa dos nossos fracassos nos outros. Assumir o nosso papel no mundo demanda coragem, pois muitas vezes a vida sepulta mais do que morte, aí percebe-se que o silêncio é completo entendimento e compaixão. Chegar à velhice sendo generoso, leal e honesto é para poucos.

Passar uma vida adquirindo estabilidade, não só financeira, porque a velhice é cara, mas também uma estabilidade nas emoções, nas reações, nos pensamentos, nos gostos, com decência, curiosidade e sensibilidade. Lembrando-nos com alívio, de como os cheiros, a chuva, o amor e a vida podem ser extraordinários, podemos fazer com que envelhecer não seja de todo ruim. Admiro quando vejo pessoas idosas que lidam bem com suas limitações, admiro quanta sabedoria, entendimento e aceitação. O que eu percebo nas pessoas que estão lidando bem com a velhice é a satisfação com a vida, a qualidade das suas relações humanas, a falta de egoísmo, a falta de individualismo, a falta da necessidade de competição, a necessidade de repartir o que elas têm de melhor e o que elas sabem, compartilhando suas experiências de vida sem receio de julgamentos e enfrentando o medo de envelhecer, determinadas a oferecer e a receber afeto dos outros, e mesmo com dor, não deixar de ter esperança.  

*Psicopedagoga/Terapeuta - Equoterapeuta/Equitadora - e-mail: denicaramori@hotmail.com

 

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