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Idoso cego cuida de horta comunitária há 30 anos em Birigui: 'Jeito de levar a vida'

Antônio Cardoso de 79 anos diz que perdeu a visão ao longo dos anos. Mesmo cego, ele sabe a hora de colher as hortaliças e se desloca com ajuda de outros sentidos.

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Há três décadas, um aposentado mantém a rotina de levantar cedo para cuidar de uma horta comunitária localizada no bairro Vila Angélica, em Birigui (SP). Até aí, nada que não possa ser visto em outras regiões. Contudo, Antônio Cardoso tem 79 anos e é totalmente cego.

O idoso afirma que trabalhou como pedreiro durante muitos anos e que não nasceu sem enxergar, mas foi perdendo a visão aos poucos.

"Eu tinha miopia, depois veio a catarata. Fui fazer uma cirurgia e a retina descolou. Os médicos colaram de volta, mas ela ficou fina igual a um papel. Então, eu fiquei cego", conta Antônio.

Depois do procedimento, o aposentado diz que pensou e percebeu que não poderia ficar parado. A decisão de começar a cuidar de 10 canteiros da horta comunitária não demorou muito para ser tomada.

Antônio conta que consegue se deslocar sem problemas, pois outros sentidos, como a audição e o tato, ficaram mais aguçados depois que ele perdeu a visão.

Portanto, ele sai diariamente da casa que construiu com as próprias mãos, no bairro Jardim Tosele, para caminhar três quarteirões até chegar ao terreno onde a horta funciona.

"Eu costumo ficar no local das 7h até as 11h. É um jeito de levar a vida", conta o idoso.

Mesmo sem enxergar, o aposentado consegue realizar trabalhos como abrir buracos, adubar a terra e colher as hortaliças. A única coisa que ele não consegue fazer é semear o solo.

"Alguns amigos me ajudam nesta parte. É um trabalho que necessita precisão. Então, por não enxergar, eu não consigo", explica.

Agora, para saber o momento certo de colher o que plantou, o idoso revela que foi se adaptando e começou a criar certas estratégias para não depender tanto dos outros.

"Se eu plantei no dia 7 de fevereiro, daqui a um mês eu posso colher. Mas isso depende do clima. Então, eu também consigo saber pelo tato, só de relar eu já sei se está madura", continua.

Para conseguir dinheiro para o próximo plantio, ele vende algumas hortaliças, mas diz que também doa para pessoas carentes.

"Muitas vezes, elas não têm dinheiro para comprar. Eu tenho dó e acabo doando. Elas precisam muito mais do que eu", diz o idoso.

Apesar das três décadas sem enxergar, Antônio conta que gostaria de voltar a ver. No entanto, para que isso seja possível, ele precisa ser submetido a um novo procedimento.

"O médico disse que preciso de célula-tronco, que deve ser retirada da espinha e, com isso, curar meus olhos. Porém, esse procedimento não está autorizado, mas ainda mantenho a confiança. Um dia vou conseguir", afirma o aposentado.

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